Fim de mais um ano.
Há exatamente um ano atrás:
Bom, eu não faço a mínima idéia de onde eu estava no natal passado. A Taíssa me disse que a gente foi pra casa da tia Elimar, como a gente tem feito nos últimos cinco natais, acho. Mas na verdade eu não me lembro. O que eu me lembro é que meu primo estava no hospital, recém-diagnosticado com Leucemia. Lembro que a gente levou comida pro hospital e lembro também que ele não conseguiu comer porque ele enjoava das coisas por conta da quimio. Desde que eu me entendo por gente eu passo o ano novo em salinas. Ano passado eu não fui pra salinas. Porque não tinha clima, assim como o natal do ano passado também não teve. “Não teve” tanto que eu nem me lembro dele. Passar o ano novo sem meu primo seria impossível, simplesmente porque ia faltar alguém muito importante. Foi um ano beeem difícil. Não foi fácil, definitivamente. Meu primo passou o ano fazendo tratamento, hoje ele está curado (no momento tá tudo normal, mas pacientes com leucemia só são considerados curados depois de dois anos sem manifestação da doença), mas só quem passa por isso sabe como realmente é difícil uma vida de hospital. Primeiro vem o impacto da notícia. “Leucemia”. Ninguém recebe isso bem, e sim, ele mesmo pensou no pior. Não sei ao certo até onde vai a minha fé, mas talvez por ela ser enorme, eu sempre soube que tudo ia ficar bem e sempre encarei isso como uma fase difícil a ser superada, não mais. Ele teve um linfoma (uma espécie de tumor) que ficou espalhado ao longo da coluna dele, ele sentia muitas dores. Lembro da cunhada dele (mulher do irmão dele, minha prima) fazendo massagem na costa dele, tentando aliviar a dor ou distrair. Lembro da minha mãe fazendo visitas diárias, e eu, idem. Lembro de uma mobilização de uma família inteira que apesar de muitas brigas se ama de verdade e no final das contas tá aí pro que der e vier. Quando não dava pra ir ao hospital a gente ligava. Com o tempo foi meio que estabilizando, ele fazia quimio, ia uns dias pra casa, depois voltava pro hospital.. Foram umas cinco sessões de quimioterapia, acho. A ultima é a mais forte, umas vinte vezes as outras. A ultima cessão eles fazem pra acabar de vez com tudo que poderia ter. Pra quem não sabe como é quimioterapia, é tipo soro, uma combinação de vários medicamentos que tem como objetivo destruir tuas células. Eu falaria que o objetivo seria destruir as células cancerígenas, mas todas as células são destruídas, então falar isso seria meio conveniente, nada mais. Ela fica pendurada ali do teu lado na cama. É porrada... Tu recebes direto na veia durante cada sessão, que varia de acordo com o paciente. Se eu não me engano as sessões do meu primo duravam uns quinze dias? Tá, não lembro. Só sei que existem muitos efeitos colaterais, o clássico seria a perda de cabelo. Meu primo ficou careca. Aí tem náuseas, aftas, diarréias e todas as coisas. Além da queda de cabelo, meu primo não teve quase nada. Ele passou por isso relativamente bem até na visão dos médicos. EU rezei muito. Todo mundo rezou muito. E quando eu falo rezar, orar, pedir a Deus e etc, eu não falo isso da boca pra fora, é no sentido literal mesmo. Ele mesmo colocou isso nas mãos de Deus de tal forma que... Sei lá, a gente tem consciência de que tudo poderia ter sido muito pior, sabe? Ao todo, ele recebeu sangue de mais de 300 pessoas diferentes e isso é muita coisa pra alguém que passa a vida sempre achando que nunca vai precisar de sangue. Tanta gente que não doa sangue, mas só quem precisa realmente de sangue sabe a DIFERENÇA QUE FAZ uma bolsinha de sangue. É uma diferença NOTÁVEL, do tipo que antes da bolsa ele não conseguia nem se levantar da cama de tão fraco e respirava até com dificuldade e meia hora depois da bolsa ele sentava na cama e conversava com a gente tranqüilamente. DOEM SANGUE, e sim, É um ato de amor (nesse ano eu aprendi a fazer propaganda). Às vezes tinham emergências também, a gente chegou a sair de casa de madrugada no pior momento e por incrível que pareça, não foi por causa da doença em si, mas por uma infecção hospitalar do portocat (uma espécie de cateter), mas Deus mais uma vez se fez presente e tivemos mais uma vitória. Lembro de sair da Unama às pressas pra chegar no hospital pra ficar com ele a tempo da mulher dele ir fazer prova na faculdade. É muito difícil conciliar a rotina de uma pessoa muito ativa a um hospital, mas quando isso se faz necessário, é preciso entender que não é só a rotina do paciente, é a rotina de todas as pessoas que estão ao redor do paciente e isso é mais difícil ainda. Claro que minhas idas no hospital nem se comparavam as da mulher dele, que vivia lá e que ao meu ver, é tão guerreira quanto ele. Não é só um cansaço físico, é uma espécie de cansaço emocional e como em todas as experiências a vida a gente aprende muita coisa, MUITA coisa MESMO, que às vezes a gente nunca nem parou pra pensar e que se não fosse por esse problema a gente talvez nunca parasse e nem valorizasse. Eu poderia falar que nesse ano eu me tornei uma pessoa melhor e parte dela eu devo a esse acontecimento específico. Meu primo? Augusto Costa, 43 anos, o melhor professor de Inglês que eu conheço e qualquer pessoa que conhece ele concorda com isso, casado, com uma filha de 6 anos e indiscutivelmente uma das melhores, mais completas e mais humanas pessoas que eu conheço. Eu tenho MUITO orgulho dele. E sim, eu o AMO muito a ponto de me perguntar o que eu faria sem ele. É meu segundo pai, entende? E depois de todo esse ano de hospital, recebendo bolsas e bolsas de sangue e plaquetas, fazendo quimioterapia e todas essas coisas, ter ele junto da gente no natal (e com cabelo!) e no ano novo é uma verdadeira conquista que eu acredito que só quem passou por tudo isso junto com a gente seja capaz de entender.
Eu não poderia deixar de falar de uma segunda pessoa, que não está mais entre a gente e que com certeza está em um lugar muito melhor, e na verdade ela foi a primeira pessoa que me mostrou o que é uma “vida de hospital”. E eu preciso contar a história dela também, porque é uma história que merece ser contada, simplesmente porque não é qualquer adolescente de 18 anos que faria essas escolhas tão difíceis e passaria por tudo o que ela passou com um sorriso enorme no meio do rosto, um sorriso tão grande e iluminado que por tantas vezes chegava a esconder a gravidade do problema. Minha prima. Há uns dois anos atrás, quando ela estava com 18 anos, ela engravidou, até aí tudo bem. O problema é que no decorrer da gravidez ela começou a ficar inchada e tudo começou a desregular. Incharam as pernas as mãos, a barriga, o rosto e outras partes do corpo, enfim, ela ficou toda inchada. A taxa de leucócitos caiu, e as outras ficaram bem estranhas também e nada dos médicos fecharem diagnóstico. A gente pensou que poderia ser leucemia, logo de cara, mas não era. Demorou um pouco até fecharem o diagnóstico em lupus. Lupus é uma doença auto-imune o que quer dizer que o teu organismo faz mal pra ele mesmo. Não é tipo um vírus ou uma bactéria que tu podes acabar com um certo remédio, é teu organismo fazendo mal pra ele mesmo. Não tem cura. O que se pode fazer é controlar a doença e viver uma vida cheia de regras. Tá, o problema é que além gravidez ela ainda tinha glaucoma e pra proteger o bebê ela tinha que iniciar uma certa medicação que aumentava a pressão ocular, e a dela já era alta, logo, ela poderia ficar cega. Ela simplesmente olhou pro médico e disse “Tá”, porque pra ela isso não era nada perto de ter um bebê, ela sempre quis ser mãe, ela nem se deu ao trabalho de pensar duas vezes. O meu primo, filho dela, nasceu de 6, 7 meses, pesando 1.100kg, ele foi o menor bebê que eu já vi. Ela tomou muito corticóide pra acelerar a formação do bebê e ela passou a gravidez inteira deitada em uma cama de hospital e só teve alta quando ele nasceu. Ela passou uns oitos meses “bem”, em casa. Depois ela teve mais uma recaída e teve que voltar pro hospital, no aniversário dele de um ano ela não estava presente. Fizeram a festa sem ela, fato este que eu achei um absurdo e a mamãe também, então quando ela saiu, a gente meio que fez uma outra festa pra ele, onde ela estava presente. Ela ficou tão feliz... Bom, uns seis meses depois ela voltou de novo pro hospital, só que dessa vez foi pior. Ela ficou muito mal... Os rins dela pararam de funcionar, ela estava até emocionalmente bem, como sempre, mas um residente imbecil virou pra ela e disse que era bom ela entrar logo na fila de doadores que os rins dela não tinham mais jeito mesmo e tal... Bom, ele falou isso pra ela da pior maneira que se pode falar, claro que não existe uma boa maneira pra dar este tipo de noticia, mas enfim, ela ficou mal. Essa ultima vez que ela foi pro hospital ela não pôde ver o bebê dela, ela tava doida pra vê-lo, mas ela não viu. Nesse mesmo dia que ela soube que ela teria que ficar na hemodiálise ela piorou muito e foi pro CTI, infelizmente ela não saiu dessa, ela teve falência renal, e os pulmões dela encharcaram e ela meio que se afogou, por culpa da doença, enfim... E ela não resistiu. Dia 06/09/2008. De uma maneira geral os pacientes que tem doenças auto-imune sofreram algum tipo de trauma emocional muito forte... Não sei explicar, mas é assim. Quando a “Nise” (como falava o filho dela) tinha uns 4 anos, acho.. Ela viu o irmão dela morrer. O pai dela tinha uma arma automática em casa que ficava em um guarda-roupa. A mãe dela saiu pra pegar o óculos do irmão na ótica e chamou um vizinho de 13 anos pra ficar olhando eles dois, ela de 4 e o irmão dela de 6. O vizinho sabia que o pai dela tinha uma arma e por curiosidade, ele pegou a arma. Ele não disparou a arma em nenhum momento, a arma disparou sozinha e o tiro atravessou a cabeça da criança, ele chegou a ficar uns dias no hospital, mas faleceu. Ela tinha 4 anos e meio que absorveu isso tudo e nunca falou sobre o assunto.
Eu ia apenas fazer um “post de ano novo” e não esperava tocar a fundo em nenhum desses dois fatos que de alguma forma fizeram parte da minha vida, mas acredito que sejam duas histórias que merecem ser contadas. Como eu disse, meu ano não foi fácil. Tiveram muitas lágrimas e muita dor, mas também teve felicidade como sempre teve e sempre terá. Tudo o que eu falei aí em cima faz parte da vida e de alguma forma todo mundo passa por isso, cedo ou tarde. Acredito que 2008 tenha sido um ano bom. Eu conheci gente nova, como eu quis que acontecesse, mas não apenas “gente” nova, eu conheci pessoas. Pessoas por inteiro, pessoas que não são superficiais, eu tive o privilégio de conhecer pessoas boas que se preocupam com outras pessoas, pessoas que tem o coração maior do que elas mesmas e isso é muito melhor do que qualquer outra coisa. E eu não estou frustrada no meu curso de Direito, eu até gosto dele. A minha fé em Deus apenas aumentou, ela não caiu em nenhum momento e isso é importante. A minha esperança e o meu otimismo descarado (por mais que às vezes eu tente disfarçar) continuam comigo e sinceramente, espero que eu possa renová-los porque definitivamente é melhor do que ser pessimista. Eu cresci mais esse ano, eu aprendi mais sobre a vida e isso é algo importante pra mim. Enfim, foi um bom ano.
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente..." (Carlos Drummond de Andrade - de novo)
Eu desejo a todos muita Saúde. Paz, amor, dinheiro... A gente dá sempre um jeito de conseguir, mas saúde é mais importante, por isso eu desejo saúde. Desejo saúde para que vocês possam assim conquistar todo o resto. Desejo saúde porque saúde é a única coisa que é realmente o problema porque pra todo o resto tu podes dar um jeito. Desejo saúde pra vocês terem o privilégio de envelhecer e conhecerem seus netos, bisnetos... Desejo saúde para que vocês possam trabalhar muito e assim conquistarem muito dinheiro. Desejo saúde para que vocês possam viver plenamente. Desejo saúde porque saúde o dinheiro não compra. Porque ninguém está livre de problemas de saúde. Porque não importa se você é bonito ou feio, rico ou pobre, você precisa de saúde mais do que todo o resto.
E claro, eu desejo, acima de tudo, Fé.
Existem duas maneiras de se viver: a primeira é acreditando que milagres não existem, a segunda é acreditando que tudo é um milagre. Viva da segunda maneira porque assim você aprenderá a valorizar tudo o que existe.
Em 2000inove (amei esse comercial). Tenha um ano novo muito feliz. :)
Tô indo amanhã pra salinas e só volto dia 4, então... Até.
“E pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz...”
p.s.: "I'm yours."
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