terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mundo está ao contrário e ninguém reparou.




Enquanto 400.000 pessoas estão assoladas na seca do nordeste, outras 80.000 estão sem teto por causa da chuva no sul do país. Como pode? Isso sem contar o número de mortes, de deslizamentos de terras. Isso é tão injusto. Um estado de “calamidade pública”, que por sinal, eu nem lembro de ter visto no Brasil. A gente olha na tv, parece até filme estrangeiro (cinema brasileiro ainda não faz filmes desse porte). Mas é logo ali, na pontinha do Brasil. Do NOSSO Brasil.
Milhares de pessoas desabrigadas, passando FRIO, FOME e DOR, muita DOR. Uma dor incomparável e inigualável e a gente aqui, seguindo a nossa vidinha mais ou menos. A gente vê a chamada do jornal nacional rapidamente e pensa “nossa, como tá ruim a coisa por lá”, e logo em seguida vai procurar algo pra comer, pensa no trabalho que tem pra amanhã, entra na Internet e fica viajando. O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
(...)
O que está acontecendo? O mundo esátá ao contrário e ninguém reparou.
Maldita cultura imediatista. É tudo muito urgente. É urgente e é egoísta. Ninguém “tá aí” pra ninguém. Isso me incomoda TANTO.
Quantas plantas sumiram das cidades grandes?
Quantos remédios não podemos usar por indisponibilidade?
Quanta sabedoria se extinguiu?
Falar que eu passo o dia pensando nessas pessoasé exagero, mas só hoje eu já pensei mais de dez vezes e as dez vezes não foram apenas quando eu olhei pra televisão e vi algum noticiário. Tem gente morrendo de fome, frio, e dessa vez não são só pessoas que não tem dinheiro pra comprar comida. O dinheiro não compra tudo. Nessas horas, o dinheiro não compra é nada. Agora, temos de mansões a palafitas alagadas. Soterradas, na verdade, muitas nem tem mais, não sobrou foi nada. E agora? Como é que fica? Alguém lembra quando o katrina passou por Nova Orleans? Até hoje estão reconstruindo a cidade, e olha que lá é pais de primeiro mundo... Imagine aqui que é “pais em desenvolvimento”? Eu me pergunto, e fosse aqui ni Pará? Nossa cidade é rodeada por um riozinho também, sabe? Nada é impossível. E aí? Como seria? Será que o resto do Brasil cruzaria os braços pra gente e deixaria tudo na mão de poucos voluntários e do governo? Será que as pessoas continuariam levando as vidinhas mais ou menos delas enquanto pertinho delas estaríamos nós, sem casa, sem comida e até mesmo sem família? Me pergunto: “que posição esperamos dos outros em uma hora dessas?”. Talvez por otimismo, esperaria solidariedade. Esperaria ajuda. Esperaria comida. Esperaria dinheiro pra reconstruir minha cidade. Esperaria um teto. Esperaria roupas. Esperaria, literalmente, um cobertor. E esperaria ainda um abraço, um ombro, um colo.
Já pararam pra pensar na possibilidade das lindas casinhas de vocês alagadas? Já pararam pra pensar em tudo o que você e a sua família construiu até hoje indo embora por causa de umas chuvinhas, de um riozinho que subiu “só” 10m. Já? Um rio que sobe dez metros é mais ou menos do tamanho do meu prediozinho de três andares. O que quer dizer que teria água no meu quarto, e teria mesmo porque eu moro no primeiro andar e perto do rio. Alguém tem idéia do que é ver tudo o que você tem indo embora em um minuto, e em “tudo o que você tem” leia-se também “sua filha grávida de sete meses”, foi o que aconteceu com uma senhora. Foi o marido, o filho, e a filha grávida. Ela segurou a mão da filha dela na tentativa frustrada de puxar ela no meio de toda aquela lama, mas a mão da filha dela escorregou e ela se foi junto com tudo. Até agora essa senhora diz que sente a mão da filha na própria mão. Me diz, como uma mãe consegue viver com isso? Eu desabaria. Isso tudo é injusto.
...
Espero pessoas solidárias. Espero pessoas com coração. Espero pessoas que ajudem, da maneira que puderem, porque sim, faz diferença. Espero isso de mim também. Espero que a gente faça por essas pessoas o que gostaríamos que elas fizessem por nós, porque hoje é hoje e amanhã não se sabe.

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