Se tem uma coisa que eu adoro é assistir comerciais. Os inteligentes, claro. Acho demais os publicitários que ficam pensando nisso, eu levanto a pontinha da saia para eles e me até me curvo um pouquinho. Tem os comerciais que te fazem sorrir, os que te fazem pensar, os que te fazem até adquirir um novo sonho de consumo... Enfim, tem de todos os tipos. Adoro os de cerveja, os de carro, mas não são esses, que me fazem dar um sorrisinho entre um bloco e outra da novela “Passione”, que me levam a escrever hoje. Hoje eu quero falar dos que incomodam. Gosto em especial daqueles que nos fazem pensar. Daqueles que cutucam a sociedade, que fazem as pessoas se envergonharem mesmo que elas não demonstrem isso só por causa de um comercial, mas que fazem com que lá no fundo, a gente se envergonha de alguns atos banais do cotidiano como passar por um mendigo na rua e simplesmente não vê-lo. Lembro de um comercial que tinha uma criancinha falando para a mãe que "ele tava com fome" e a mãe perguntava "quem, minha filha?", como se aquela pessoa necessitada, sem tomar banho há meses, sentada num pedaço de papelão fosse invisível. Isso me incomoda. Isso sempre me incomoda. Como já dizia Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Eu penso que se a minha rotina de sair de casa às 8h e voltar às 20h me deixa alucinada por um banho... Imagine se eu não tivesse como tomar um banho? Ou se eu não soubesse se hoje eu iria almoçar ou não, ou se ia fazer frio e eu provavelmente não teria um cobertor ou uma cama confortável para me acomodar sob o edredom... Tem um comercial que diz que ler devia ser proibido, porque a leitura faz com que as pessoas se tornem mais humanas... O texto é esse:
“Pensando a respeito acho que ler devia ser proibido. Nada contra quem lê, mas de certas coisas não se duvida e ler não é nada bom. A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade. A leitura tira o homem de sua vida pacata e o transporta para lugares nada convencionais. Para uma criança o perigo é ainda maior porque ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo e querer até mudá-lo. Dá pra imaginar? E outra coisa, ler pode estimular a criatividade e você não quer uma criancinha bancando o geniosinho por aí, quer? Além disso a leitura pode tornar o homem mais consciente e ia ser uma confusão se todo mundo resolvesse exigir o que merece. Nada de vagar pelos caminhos da imaginação, simplesmente porque leu um bom livro. Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer.
Quer um conselho?
Silêncio!
Ler só serve aos sonhadores e sua vida não é uma brincadeira! Cuidado! Ler pode tornar as pessoas perigosamente mais humanas.”
Acho que eu sou essa criança aí, que cresceu inconformada com os problemas do mundo e desperdiça passa horas pensando em como mudá-lo e depois se frustra, pois não sabe se pensa que “uma andorinha só não faz verão” ou que “cada um deve fazer a sua parte”. Acabo acatando a última ideia, mas aí me deparo com a segunda ideia ao olhar ao meu redor. Enfim, frustrações.
Outros comerciais que vêm chamando a minha atenção são os do Canal Futura. Eles me fazem parar para refletir e eu gosto disso. Eles não incomodam de fato, mas chamam a atenção e isso é bom:
“Até hoje ainda não temos certeza de onde viemos. Até hoje os filósofos ainda querem entender quem somos, existem umas duzentas teorias sobre para onde vamos. Os economistas querem explicar a crise e os cientistas como o cérebro funciona. Como você pode ver, não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas.”
“Até hoje os cientistas discutem como a vida começou, se a opção sexual é definida pela genética ou por que você boceja quando alguém boceja. Os biólogos querem entender como os pássaros migram e os nutricionistas se o ovo faz mal à saúde. Como você pode ver, não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas.”
“Galileu pensou que a terra girava em torno do sol, acabou condenado. Joana D’arc queria unificar a França, terminou na fogueira. Robespierre pensou que podia ser igual e livre, foi parar na guilhotina. Tiradentes queria o Brasil independente, foi condenado à forca. Sorte sua viver em uma época em que você é livra para pensar.”
“Você pode pensar muitas coisas, pode achar que nada supera o capitalismo ou ter certeza que o comunismo é a única saída. Você pode pensar que existem vários deuses, ou nenhum, ou que eles eram astronautas. Você pode ter várias teorias da conspiração, pode saber quem matou Kennedy. Acreditar que a viagem à lua foi uma grande farsa, ou que Elvis está vivo. Você pode pensar que a televisão é mais um eletrodoméstico na sua vida, ou que é uma das maiores invenções da humanidade. Você pode pensar muitas coisas. A única coisa que você não pode fazer é não pensar.”
“Já foi dito que a terra era o centro do universo e que era o sol que girava ao seu redor. Já disseram que virgens deveriam ser sacrificadas, que livros não poderiam ser lidos e bruxas mereciam ser caçadas. Já foi dito que o homem era incapaz de voar ou de chegar ao fundo do oceano. Já foi dito que negros não poderiam entrar, que judeus não poderiam sair e que só os brancos teriam o direito de ir e vir. Já disseram que gêmeos eram loucos e que loucos eram brilhantes. Já foi dito que mulheres não deveriam votar. Que micro-organismos eram lendas, figuras eram impossíveis. Já disseram que a televisão seria apenas mais um eletrodoméstico na sua vida.”
“E se as cabeças fossem quadradas? E se bastassem três acordes? E se ciência e religião fizessem as pazes? E se fosse possível prever o futuro? E se? Questione, descubra, mude. O conhecimento é irresistível.”
“E se arte fosse ilusão? E se o homem mais poderoso do mundo fosse negro? E se o petróleo acabasse agora? E se o universo tivesse 11 dimensões? E se? Questione, descubra, mude. O conhecimento é irresistível.”
Como já disse ali em cima eu adoro os comerciais de cerveja, os de carros, os da coca-cola, enfim... Mas se dependesse de mim pelo menos 50% dos comerciais seriam do tipo “pense, reflita, questione-se, viva, ajude, etc.”, em muitos casos a coca-cola consegue agradar nesse sentido; e tem outros comerciais que eu amo também como os dos cartões VISA, porque conseguem passar uma boa mensagem ao mesmo tempo em que existe aquela mensagem subliminar de “gaste seu dinheiro, use nossos cartões, consuma e seja feliz consumindo”. Eu gosto disso, porque acho que é bom aproveitar o espaço entre um bloco e outro da novela “Passione” (e todo o resto da programação da TV, é claro) para passar uma boa mensagem, porque principalmente mesmo quando a mensagem incomoda ela tem um resultado positivo, um simples comercial faz você pensar naquilo, mesmo que por pouco tempo. Enfim, gosto de coisas inteligentes, de pessoas inteligentes e de grandes ideias. Assim, desse jeito, sem arrogância... É que eu conheço tanta gente ignorante e com o pensamento pequeno ao meu redor que entristece, porque a meu ver o pior tipo de ignorância não é a daquele que não tem oportunidade, é daquele que tem, que olha, vê, mas não repara. O pior cego continua sendo aquele que não quer ver.
Beijos!
E muito obrigada pelos comentários, por me ler e por me visitar! :))
3 comentários:
Publicidade é sem dúvida um ramo que eu seguiria. É comunicação social também. De fato, alguns comerciais são incríveis. Cada sacada... que vc fica pensando: "Eu queria ter tido essa idéia!". Algumas pessoas levam pelo lado: "Ah, é tudo mentira pra levar nosso dinheiro!" Claro. Quem pagaria para divulgar um serviço ou um produto, dizendo 100% da verdade? A idéia é usar a criatividade para despertar a fantasia. Somos seres pensantes, cabe a nós ponderarmos na hora da escolha, da compra, da aceitação do que é dito.
Ah, reparar: as propagandas de banco são as melhores! :)
Beijos!
Muito inteligente e, principalmente, pertinente esse seu texto, com o perdão da cacofonia. Acho muito legal o seu jeito de encarar as coisas, Raíssa. Entre comerciais inteligentes e mendigos invisíveis, lembrei-me de uma camanha que podia encaixar muito bem no que você disse. Em época do Natal em Nova Iorque, uma agência reuniu seus empregados para fazerem uma campanha que "exaltasse a cidade". Equipes saíram pela Big Apple para um "brainstorm" ao ar livre. A agência fez algo bem inesperado. No dia de Natal, no telão da Times Square, um vídeo caseiro, feito sem nenhuma pompa, mostrava diversos mendigos da cidade, na neve, nos pontos de ônibus, nos becos imundos cantando "New York, New York", em uma peça de um minuto que continha apenas isso. Certamente uma facada no orgulho cego de uma cidade, que no Natal costuma preocuparce mais com presentes que com humanos...
Beijos, Raíssa!
Existem comerciais que são verdadeiras obras de arte. Há uma rede de supermercados aqui no Rio Grande do Sul que sempre apresenta belos comerciais em datas importantes.
Tem um que é o meu preferido. Está no YouTube e se chama 'Comercial Zaffari 1999'. O comercial trata sobre o ano internacional da paz. É muito bonito!
Abraços
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