Um tempo desses uma professora da Universidade Estadual do
Pará, UEPA, protagonizou um episódio chato. Ela se alterou com o porteiro da
instituição e começou a xingá-lo e dentre os xingamentos a infeliz professora
soltou um “macaco”. Parece uma palavra mágica, só que ao contrário, porque
mágica presume coisa boa, mas não nesse caso. Vendo as gravações, observei que
foi só a professora soltar o poderoso “macaco” e de repente racismo. De repente
crime. De repente, um crime inafiançável e imprescritível. Gravíssimo. De
repente preconceito.
Admito que fiquei com pena dela.
Primeiro, pra mim, o cara não era negro. Em Belém do Pará
80% da população tem aquela cor, inclusive eu quando pego sol fico
parecidíssima com ele. Então parto da ideia de que para o cara ser vítima de
racismo pelo xingamento “macaco”, ele, sendo vítima, deveria pelo menos ser
negro de fato. Outrossim, acredito que uma pessoa branca, que no meio de uma
calorosa discussão fosse chamada de osga, fantasma ou parede, deveria
igualmente ser vítima de racismo. Mas isso é uma opinião minha, bem pessoal,
que nem é tão relevante pra questão que eu quero levantar.
Não estou aqui defendendo a professora, em hipótese alguma.
Eu acredito, e muito, que a base de qualquer relação humana é o respeito. E
acredito que ele deve ser praticado em tempo integral, o que obviamente não
acontece, mas é só como tinha que ser mesmo. O que a professora fez não foi
legal. Mas ela não fez mais do que a maioria de nós já fizemos algum dia.
Xingou alguém que a contrariou. Tem gente que faz por trás e tem gente fala na
cara mesmo. Ela tá no meio dos que falam na cara. Ok, injúria, ok, difamação...
E ok que se todo mundo que fosse xingado na rua fosse abrir mais um processo
por isso em vez de respirar fundo e ir embora, o judiciário só ia estar um
bilhão de vezes mais atolado do que ele atualmente já está. Mais uma opinião
bem pessoal.
Mas claro que cada caso é um caso e que cada pessoa sente as
coisas da sua maneira e sabe até onde deve ir para se sentir reparado ou devidamente
indenizado. E dependendo da situação, tem gente que merece um processinho
mesmo. Bem, o que mais me intrigou nessa situação, não foi o fato em si. O que
me intrigou, incomodou e me deixou bastante pensativa sobre o assunto foi a
repercussão do caso. É a maneira que as pessoas encaram isso hoje. A maneira
que as pessoas se comportam diante desses casos. É o politicamente correto
totalmente incorreto.
Em 24h as imagens da professora estavam sendo veiculadas em
todos os jornais nacionais, nas redes sociais, sites de notícia, enfim, em
todos os lugares imagináveis. E a pobre da professora se desculpando incansavelmente
pelo seu surto de estresse e descontrole, explicando que o “macaco” dela era um
simples macaco. Como um burro, idiota, macaco, chato, ignorante, e etc. Era só
mais um xingamento.
Acredito que pior do que ser julgada por um juiz, pior do
que responder ao processo em si, só deve mesmo ser o “júri popular”. Deve ser
ter o nome na boca do povo, o rosto conhecido pelo frentista, por outro
porteiro, pelo Zé da padaria, pelo dentista, e por aí vai. Deve ser arruinar a
carreira de professora de antropologia e de *religiões afro* por causa de um
descontrole emocional. Deve ser o julgamento diário de todas as pessoas, deve
ser os olhares pesados. E chegamos ao ponto, porque é isso que me incomoda: o
pior de tudo deve é a nossa hipocrisia.
Vi durante mais ou menos uma semana uma boa quantidade de
pessoas compartilhando fotos com “cadeia nela”, “racista”, “prende ela” e
coisas do gênero. E no decorrer dessa semana eu me perguntava: “onde essas
pessoas escondem o preconceito delas?”.
Acho que as pessoas estão precisando mais do que nunca de
uma autoavaliação. De um espelho. De um olhar mais pra dentro do que pra fora. As
pessoas são preconceituosas. Todos somos preconceituosos. É feio, não é bonito
e atualmente o preconceito tá fora de moda e anda muito mal visto, mas ele
existe e muito. Na sua casa, na casa do vizinho, no bairro, na cidade, em todos
os lugares. Nós lutamos hoje por uma sociedade livre, eu luto por isso e boa
parte das pessoas que eu conheço também. Observo que é menos difícil para nós,
jovens, nos adaptarmos do que meus pais, por exemplo, que foram criados e
viveram a vida toda em uma sociedade com um rótulo totalmente diferente do que é
hoje. A tendência, se a coisa funcionar, é que a próxima geração esteja mais
perto da igualdade utópica que criamos do que nós jamais estaremos, mas a
realidade dos fatos é que eu Raíssa,hoje com meus 21 anos, fui criada em uma
sociedade altamente preconceituosa. Acho que o último século trouxe tanto
avanço, tanta informação e foi tudo tão mais rápido do que em todos os outros
tempos desde que o mundo é mundo que todos nós temos uma grande dificuldade de
lidar com tudo isso. É preciso aprender como fazê-lo? Sem dúvidas! Precisamos
nos adaptar, mas exigir isso das pessoas do dia pra noite, apesar de ser uma
necessidade e da teoria ser muito, mas muito boa, na prática mesmo é bem mais
do que dar um passo maio que a perna.
Não conheço uma única pessoa que ao andar na rua veja uma
criança de rua um moleque de rua ou um desses “estudantes loirinhos” que
não aperte bem a bolsa embaixo do braço, segure a carteira e o celular no bolso
e dê uma apressadinha nos passos. E quem disse que isso não é preconceito? É
sim! E muito. Eu mesma não dirijo com as janelas abertas e quando o faço, é só
parar o carro em um sinal que instantaneamente fecho os vidros, principalmente
se tiver um cidadão rolando bolinhas de malabarismo na mão ou cuspindo fogo
enquanto o sinal não abre. E eu sei que você também faz isso. E a pior parte:
Se o cara do sinal for bem vestido, loiro e de olhos azuis (raro aqui em Belém,
porque como disse, nossa população definitivamente não segue essa linha), você
até abre a janela e dá lá suas moedinhas. Mas se ele for negro, mal vestido e
tiver com cara de que não toma banho há meses... Você já tá soltando a
embreagem antes mesmo do cara bater na sua janela.
Pensar que o suposto preconceito da professora é pior do que
o seu preconceito não te torna uma pessoa menos preconceituosa.
O fato é que as mesmas pessoas que fazem tudo isso que eu
acabei de falar, são as mesmas pessoas que tanto falaram mal da infeliz professora
da UEPA no decorrer da semana.
Tenho preconceitos e luto diariamente para que eles deixem
de existir. Tenho preconceito principalmente em reação a pessoas que são
preconceituosas, o que é até conveniente. Tenho preconceito, porque a gente
vive em sociedade e ao mesmo tempo somos individualistas demais e somos criados,
preparados e educados para sermos individualistas. Tenho preconceito, porque por
mais que eu lute muito contra o preconceito, ele é aparentemente inevitável,
porque de certo modo, as pessoas nunca vão te agradar em unanimidade. Então
levanto de novo a minha bandeira do respeito. Porque respeito é a base de tudo.
O preconceito é horrível, porque ele é um monstro e machuca.
Machuca muito. Destrói mesmo.
E aí? Onde você esconde o seu preconceito mesmo?
Um comentário:
O meu eu guardo atras de uma fachada de compreensão e bons argumentos. Assim eu pareço menos preoconceituoso que os outros. Mas o que me incomodou no caso foram duas coisa:
Primeiro, trata-se de uma professora. A sociedade sempre exige demais delas.
Segundo, o preconceito pra mim não está da questão do Severino, olha meu preconceito aí gente, ser branco, pardo, etc. O problema é que ele é o porteiro! O preconceito social chega muito antes da cor. E pra esse não tem cadeia.
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