Cinco anos de curso e agora que tá acabando eu observo que meu senso crítico ficou ainda mais crítico. Não, não vou escrever que vou morrer de saudade, nem nada do tipo. Vou contar uma história. Uma história que todo mundo já conhece, porque apesar de ser só mais uma história dentre muitas histórias que compõem a minha vida, quase todas as pessoas já passaram por algo do tipo.
Hoje eu tava deitada na minha cama, meio dormindo, meio acordada, quando começo a escutar gritos. Moro em um residencial, são seis prédios de três andares, cada prédio com seis apartamentos. Uma das vizinhas gritava lá embaixo “ladrão! Ladrão!”. Antes dos trocadilhos, sim, eu moro no jurunas (bairro periférico e possuidor de má fama por ser violento), mas se isso só fosse uma realidade da periferia, a maior parte das pessoas não se identificaria com esta história.
O cara arrombou o portão de uma casa vizinha ao residencial, estava tentando roubar, pelo o que eu entendi, uma TV e uma chapinha de cabelo (!). Parece que havia uma criança na casa, mas até onde eu sei, o ladrão não fez nada em relação a ela. No momento em que ele estava assaltando a casa, o dono da casa e a esposa chegaram, o ladrão portava uma faca, pulou o muro, se machucou pelo arame farpado e veio parar aqui no condomínio.
O porteiro foi atrás dele e alguns moradores desceram com toda aquela gritaria. Curiosos não faltam nessas horas. Encurralaram o ladrão, não sei se chegaram a bater nele porque eu não vi, eu demorei a descer, minha mãe que desceu correndo na mesma hora e ficou lá brigando para não baterem nele. Eu nem ia descer, porque não achava que tinha algo demais a ser visto, até que me toquei que poderiam querer “linchar” o ladrão, enquanto a polícia não chegava. Aí eu desci. Tinha mais gente pra ver o ladrão do que costuma ter nas reuniões de condomínio. Ênfase.
O cara devia ter cerca de 1,70, magro (pele e osso), as maçãs do rosto eram até acentuadas por causa disso, estava sem camisa, tinha pele negra e era visivelmente “acabado”, se é que me entendem. Potencial usuário de drogas só pelo aspecto físico, mas essa parte já sou eu que presumo. Ele não fez ninguém de refém, entregou a arma logo que foi encurralado, era uma faca, e não machucou ninguém aqui do prédio, apenas tentou furtar uma bicicleta com a finalidade de fugir, mas não deu certo e ele acabou jogado no chão mesmo, esperando pela polícia.
Quando eu cheguei ao local onde o ladrão estava tinham quatro jovens ao redor dele, havia mulheres, adolescentes, adultos, meus pais... Minha mãe tentando acalmar um senhor extremamente alterado que logo depois constatei ser a possível vítima, pois era o dono da casa que ora o assalto foi tentado. Minha mãe tentava acalmá-lo enquanto ele tentava convencê-la a permitir que pelo menos “só” a perna do ladrão fosse quebrada. Ele queria bater no ladrão, como se isso fosse resolver todos os problemas.
Cheguei ao meu ponto. Ao que me incomoda a ponto de querer escrever. Pra que espancar o ladrão? Isso só te torna tão ruim quanto ele. No momento da raiva a gente perde a cabeça, a gente quer justiça com as próprias mãos. Não basta que a polícia o pegue aqui e leve para a delegacia, não basta que ele seja espancado por lá ocasionalmente, não basta que ele já esteja machucado e sangrando ali no chão, e nem basta dar uns tapas na cara dele, o que por si só já seria um absurdo, mas tem que quebrar a perna dele. Tem que sangrar, fazê-lo gritar, urrar de tanta dor. Pra que mesmo? Afinal, quem tá causando dano a quem mesmo? É o ladrão a você ou você a ele? Qual dos dois é melhor?
Eu poderia falar que os homens se sentem mais homens quando espancam um ladrão. Que são os hormônios, a testosterona à flor da pele, mas aí eu estaria me olvidando de um fato que me chamou mais atenção ainda: as mulheres. Uma estava com um pedaço de pau na mão. Pasmem. Será que eu sou de outro planeta ou eles que são?! Porque eu acho isso de uma covardia sem tamanho. Imaginem: o cara ali, visivelmente sem ter onde cair morto, sangrando, jogado no chão, com umas trinta pessoas ao redor dele com uma sede de sangue maior do que a dos vampiros da moda.
Essas pessoas realmente acreditam que espancar o ladrão vai vingar todos os assaltos que elas já sofreram? O Cachoeira tá solto e falando em dinheiro (porque até onde eu sei o ladrão não ameaçou a vida de ninguém, apenas os bens) ele foi o cara que mais nos roubou até hoje e nunca ouvi falar de uma multidão tentando espancá-lo. As pessoas acreditam que agindo dessa forma vão dar um corretivo no ladrão? Que ele nunca mais vai assaltar na vida dele? Ele saiu daqui chorando e sangrando. Não estou com pena dele porque ele estava chorando, e nem acho que ele se arrependeu do que fez, no máximo ele deve ter se arrependido de não ter feito de uma maneira que o resultado tivesse mais êxito pra ele e provavelmente ele vai fazer de novo. Ele não passava de mais um pivete desses. E isso era muito, muito visível. E suponhamos que ele responda a um processo adequadamente e seja preso, ele só vai continuar a ser só mais um “pivete” excluído pelo nosso sistema e nada mais do que isso. E quando ele for solto, só vai ser mais um ladrão nas ruas. E agora? Não sei. Meu objetivo não é analisar a conduta do ladrão, nem me considero competente para tal. Mas acredito verdadeiramente que meu direito acaba onde começa o dele. E isso não é só mais uma coisa que eu aprendi no curso, é uma coisa que eu aprendi na vida, por viver em sociedade. Não é matando o cara que você vai corrigir o sistema, nem resolver seus problemas, nem melhorar sua sensação de segurança, nem diminuir as taxas de violências, nem se sentir mais leve, nem encostar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Se você sofrer algum desvio de caráter, talvez seu ego fique relativamente inflado com esse tipo de conduta, mas fora isso não tem justificativa plausível.
A solução adequada para isso tudo envolveria questões tão grandes de educação, inclusão social, reformulação do sistema e tantas outras coisas, e é tão utópica que escrever sobre ela seria um desperdício de tempo pra mim e pra quem se desse ao trabalho de ler isso aqui. Mas saber o que NÃO É SOLUÇÃO não é inalcançável. É óbvio. É acessível. É coerente. É uma questão de bom senso. E praticar isso, idem.
Não machucaram o ladrão aqui no prédio, mas só porque houve objeção. Ameaças não faltaram. Quando os policiais chegaram, a outra vítima, esposa do dono da casa, entrou aqui no prédio, também bastante alterada, falando que o ladrão não sabia com quem ele estava mexendo. Pensei comigo mesma: “ela é irmã, mulher ou mãe de traficante, certamente!”. Errei. Logo em seguida ela disse, “você mexeu com um servo do Senhor! Você vai morrer!”. Para tudo. Para tudo. Para tudo... Agora a gente ameaça a vida das pessoas em nome de Deus? É isso mesmo? Pergunto-me mais uma vez: quem é melhor do que aquele cara ali jogado no chão, todo sujo de sangue, pensando dessa forma?
Fica aí minha história do dia pra vocês refletirem um pouco sobre a vida, sobre conduta, sobre ser, sobre ser humano.
Talvez eu seja extremamente garantista, mas não me importo, até me orgulho. Porque conseguir ter esse tipo de ponto de vista é raro e conseguir praticá-lo no dia a dia, a meu ver, é uma benção. E de poucos.
Olho por olho, dente por dente e o mundo acaba cego e banguelo, minha gente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário