terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Santa Maria


Santa Maria. O Brasil inteiro falando de Santa Maria, o mundo inteiro falando de Santa Maria. Tentei fugir de Santa Maria, mas não consegui. Um acidente, uma tragédia, uma dor imensurável. Sem dúvidas. Hoje a gente tem um país de luto. Acordei lendo comentários no facebook, depois ouvia os jornais, não conheço alguém que não saiba o que aconteceu ali. Essas tragédias em massa sempre mexem comigo. Na última vez em que um louco invadiu uma escola nos EUA e atirou em várias criancinhas eu cheguei a sonhar com elas me pedindo socorro. Rezei por elas, ouvi de alguém “talvez esses anjos estejam me pedindo oração”. Acredito em Deus, o que me dá bastante suporte para superar certas dores e tentar extrair delas o que pode haver de bom numa situação difícil. Aliás, acho que essa é a diferença entre os que tem fé e os que não tem. Respeito qualquer tipo de religião e até mesmo a ausência delas, mas fiquei triste quando vi na página da comunidade ATEIA no face uma foto com vários corpos na boate com um título do tipo “Onde está esse Deus que vocês tanto falam?”, com um texto afirmando que se Deus existisse, isso não teria acontecido. Em contrapartida o Pd. Juarez acabou sem querer respondendo essa pergunta brilhantemente em sua página do face, pois sua sobrinha tinha questionado o mesmo assunto. O fato é que independentemente de religião ou ausência da mesma, acho que utilizar uma foto de um acontecimento tão triste pra incitar ou provocar outras pessoas uma falta de respeito sem tamanho. Infelizmente essa não foi a única falta de respeito que eu vi, e nem vai ser a última, porque repercussão, a tal da liberdade de expressão e tantas outras coisas, sempre vão existir, mas o que eu espero de ateus, espíritas, budistas, judeus, evangélicos, umbandas e etc, etc, é amor. É solidariedade. Porque isso eu espero de qualquer ser humano. Tenho um comportamento bem característico de mim que é me colocar no lugar dos outros. Isso é bom e ruim. É bom, porque compreendo melhor as outras pessoas e é ruim, porque às vezes eu gostaria de ser um pouco mais egoísta como as outras pessoas costumam ser. Enfim, sempre me coloco no lugar das pessoas e meu coração fica apertado toda vez que eu penso nas 231 pessoas que perderam a vida ali. Assim como fica apertado quando eu penso nas vítimas das torres gêmeas, nas crianças doS tiroteioS  daS escolaS, quando penso nas vítimas de acidente de trânsito, quando penso nos pacientes terminais do hospital em que eu trabalho, quando eu penso nas vítimas das explosões dos bueiros no RJ, dos acidentes de avião da gol e da TAM, nas vítimas dos prédios que desabam pelo nosso Brasil, quando eu penso na quantidade de pessoas que morrem nas guerras, nos conflitos mundo à fora, enfim, eu poderia passar horas listando vítimas e vítimas que me fazem dedicar minutos dos meus dias para reflexões sobre todos nós, sobre atos e consequências, sobre as dores  do mundo... A primeira certeza universal é a morte. Arrisco dizer que a segunda é que nunca estaremos preparados para lidar com a primeira. Construímos laços, vidas em torno do amor e do afeto e cuidamos muito dessas relações, protegemos, defendemos e fazemos de tudo para que as coisas fiquem sempre estáveis, mas a verdade é que sabemos que em algum momento, de alguma forma, esse afeto e esse amor vão se transformar e a saudade também vai invadir nossos sentimentos, porque pessoas que amamos nos deixam e isso não depende da nossa vontade. Fico pensando na garota que deixou de ir à boate, porque o namorado arrancou um dente e no outro que deixou de ir, porque o pai simplesmente pegou no pé dele, porque ele estava saindo demais. Nessas horas nos damos conta daquilo que já sabemos, mas não pensamos, na fragilidade da vida. Em dez minutos de incêndio todos praticamente já tinham morrido. E se tivessem portas de emergência? E se os meios de comunicação entre os seguranças fossem melhores e eles tivessem aberto as portas o mais rápido possível? E se tivessem extintores? E se? E se? A verdade é que se esses “e se” fossem afirmações, talvez mais pessoas tivessem conseguido sair dali, ou não. Porque quando a gente trabalha com possíveis situações, também trabalhamos com possíveis respostas. Enfim, minha questão não é exatamente apurar fatos ou apontar culpados. Nunca é. Minha questão sempre é humanização e conscientização. Desejo que esse triste acontecimento desperte a atenção das autoridades, o que aparentemente já aconteceu. Desejo que nosso país, um tanto corrompido, se preocupe mais em fiscalizar, lembrando que fiscalizar não é algo que devemos unicamente cobrar que os outros façam, mas que nós, como cidadãos, devemos fazer também. Desejo que o amor e o respeito façam parte da vida, do dia a dia, dos atos, de tudo, porque falta de amor ao próximo deixa o mundo ao contrário e proporciona situações com desfechos infelizes. E, claro, desejo mesmo muita força para todos nós superarmos nossas perdas, em especial, aos amigos e familiares das vítimas de Santa Maria.




Um comentário:

Dom Rafa disse...

Lindo/excelente texto. Me chamou atenção a parte do uso de fotos na tal página dos ateus no Facebook. Acho engraçado eles ridicularizarem postagens religiosas "extremistas" e, por sua vez, serem extremistas em sua anti-religião em igual proporção. Tirando as teorias sensacionalistas que vi por aí (teria sido um sacrifício e não um acidente). Mas enfim... Foi uma tragédia mesmo; difícil de descrever a fatalidade e difícil de aceitar o medo dos donos de liberarem as pessoas sem pagar... Lastimável.
Beijos, Raíssa!