quarta-feira, 27 de março de 2013

Democracia - CDHM

Democracia 
(grego demokratía, -as, governo do povo) 
s. f.
1. Governo em que o POVO exerce a soberania, direta ou indiretamente.
2. Partido democrático.
3. O POVO (em oposição a aristocracia).
[grifo meu]




Depois de assistir ao vídeo no qual a belíssima apresentadora do SBT, Rachel, "defende " a posição atual do senhor deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos, finalmente encontrei a motivação que precisava para escrever.
O discurso da jornalista foi bonito, ela falou sobre o Estado laico, falou da liberdade de crença, de culto, de pensamento, de expressão e ainda se aventurou a falar sobre a "tal democracia". Falou sobre a diferença entre o pastor e sua figura parlamentar.

Bonito o discurso. PALMAS. Clap, clap, clap...

Fico preocupada que existam pessoas que pensem como ela. Porque existem, eu sei. Fico preocupada que as pessoas confundam liberdade de expressão com liberdade de opressão. Fico preocupada com nossa sociedade, com a opinião das pessoas, com o conformismo do povo brasileiro. Fico preocupada que uma jornalista bem sucedida, apresentadora de um jornal conhecido pelo público brasileiro, provavelmente muito bem formada, âncora de um jornal popular, manifeste esse tipo de opinião em rede nacional, em horário nobre. Jornalista é formador de opinião, principalmente em relação aqueles que não tem muito conhecimento, muitas oportunidades, mas que ainda assim, são gente como a gente e fazem parte do nosso povo. Assim como pastor. Pastor também é formador de opinião. Pastor é um líder religioso. E religião, para os que são crentes, e não me limito aos evangélicos, mas a todos que possuem de fato uma crença seja no que for, é algo muito importante, forte, é um suporte emocional, é uma base, é um chão, é um pilar, enfim, me faltam adjetivos para descrever, mas o fato é que é de tal importância que, infelizmente, não se separa facilmente do exercício da função parlamentar. Religião é... Uma religião. A vida de muitas pessoas giram em torno de uma religião. Às vezes isso é bom, mas outras vezes é terrível, o que não muda o fato das coisas serem como são.

Seria como colocar um padre católico ortodoxo na presidência da CDHM e esperasse que ele representasse a classe das feministas que lutam pela legalização do aborto ou aqueles que lutam pela legalização do casamento homoafetivo. Completamente incoerente, no mínimo. Um padre ortodoxo, assim como pastor Marco Feliciano, não iria passar a defender uma conduta que ele CRÊ que seja completamente errada, sobre a qual ele prega na Igreja dele todos os dias e condena tal postura aos olhos dos homens e até de Deus, só porque é um parlamentar e presidente da CDHM. Um padre ortodoxo não iria se despir da batina, colocar um paletó e se fantasiar de parlamentar e simplesmente defender o oposto do que ele prega, crê e vive diariamente, isso seria duvidoso, seria, me reservando o direito de julgar esta conduta, errado, equivocado. Igualmente a um padre ortodoxo, o pastor senhor deputado Marco Feliciano, que não é um simples pastor, mas é um pastor que tem condutas extremamente duvidosas, comprovadas através de diversas gravações que qualquer ser humano tem acesso através do google, e também por suas declarações desprezíveis em sua página pessoal, não pode e não deve representar o povo brasileiro.

Por que? Só por que o cara é pastor? Não. Seria ignorância minha falar isso. A CDHM não representa simplesmente as minorias, ela representa qualquer cidadão que está lendo este texto e qualquer um que compõe o diversificado povo brasileiro, uma vez que todos nós juntos, o povo, representamos nada mais nada menos do que todas as minorias juntas. Somos um povo, e por mais que uns e outros não queiram ou tentem excluir de alguma forma uma determinada parte da sociedade, seja por credo, raça, etnia, orientação sexual, o que for, compomos o mesmo povo, a mesma sociedade.

O problema é ele ser evangélico? Não, não é. Assim como o problema do padre ortodoxo não seria ele ser católico. Então o presidente da CDHM tem que ser ateu? Óbvio que não. Ele pode ter a religião que for, desde que seja capaz de RESPEITAR as diferenças. Porque a base da vida em sociedade é o respeito. Um tem que respeitar o espaço do outro. E definitivamente não se respeita uma pessoa condenando-a pela cor de sua pele, pela sua orientação sexual, extorquindo dinheiro de fieis e assim por diante. Um cidadão que já conseguiu ferir a dignidade da pessoa humana de tanta gente, simplesmente não pode representar uma Comissão de Direitos Humanos. É absurdo! É como colocar um pedófilo para cuidar de criancinhas, um skinhead lutando pelos direitos direitos de Judeus e homossexuais, é colocar a raposa pra cuidar das galinhas. É insanidade.

Que ser humano é esse que declara essas coisas em sua página pessoal do Twitter?
"Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome... Etc" e "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição".

?????????????

Fiz questão de iniciar este texto com o significado da palavra democracia, porque acho que assim como a jornalista Rachel, tem muita gente que se confunde com esse conceito. A base da democracia é o povo. A eleição de Marco Feliciano foi por 11 votos dos 18 membros do colegiado, sendo que apenas a bancada evangélica, que está se reproduzindo que nem coelho, diga-se de passagem, estava presente (!!!). Feliciano recebeu 11 votos dos 12 deputados que estavam presentes, a eleição foi visivelmente manobrada pela bancada evangélica. Deputados ligados à causa dos direitos humanos se retiraram da reunião antes da votação em protesto contra o nome do pastor e também em razão da proibição, determinada pelo presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), de que a votação na CDHM ocorresse a portas fechadas. Manifestantes ocuparam os corredores da Câmara, mas foram impedidos de entrar na sala em que a escolha foi oficializada. O abandono na CDHM foi liderado por Domingos Dutra (PT-MA) que afirmou que a forma como a votação foi conduzida configurava uma “ditadura”. O petista foi acompanhado pelos deputados Padre Ton (PT-RO), Erika Kokay (PT-DF), Jean Wyllys (Psol-RJ), Luiza Erundina (PSB-SP), Luiz Couto (PT-PB) e Janete Pietá (PT-SP). 

O presidente da Comissão não é eleito diretamente pelo povo, mas sim pelos "representantes" do povo que estão lá na câmara dos deputados. Essa eleição SUPER DEMOCRÁTICA foi iniciada após a saída da sessão de deputados contrários à escolha de Feliciano, indicado pelo PSC para ocupar o cargo. O ex-presidente da comissão, deputado Domingos Dutra (PT-MA), renunciou ao cargo momentos antes da votação e se recusou a dar continuidade à sessão. "Me retiro nesse momento em nome do PT e me retiro em meio a uma ditadura que foi estabelecida aqui", disse o deputado. Ainda estou procurando onde ficou a democracia nessa situação toda e fico chocada quando a jornalista Rachel diz basicamente que a eleição foi democrática e que "os parlamentares que não concordarem que se retirem". Falar isso é subestimar demais nossa inteligência e nossa capacidade. Na presidência, o deputado terá poder para colocar ou retirar de pauta projetos de lei relacionados a direitos humanos e defesa de minorias. ISSO É MUITA COISA!!!! Talvez Rachel não se lembre que há uns quatro meses atrás, a bancada evangélica, que é assim denominada, deixando mais do que claro e translúcido que não se separa a figura do pastor da figura do parlamentar, estava discutindo sobre como dar um passo para trás na sociedade brasileira e permitir que a homossexualidade seja encarada como uma doença e possa ser tratada como tal nos consultórios de psicologia Brasil à fora. Isso eu citei apenas a título de exemplo. É uma das muitas e muitas coisas que a bancada evangélica apronta no parlamento brasileiro por não saber separar o que é um Pastor, o que é ser uma pessoa crente, seja lá qual for suas crenças, da figura ilustre que é o parlamentar brasileiro.

Mas deixando um pouco de lado nosso sistema maquiado de democrático, vamos falar da democracia em si. A democracia representa o povo. Representa eu, você, todos nós. Mas Marco Feliciano não me representa. Não representa meus interesses e nem da maior parte da sociedade, acredito eu com base na repercussão negativa que teve a eleição dele. Democracia, não é ter que aceitar a presidência da CDHM, simplesmente porque a eleição foi supostamente democrática. Exercer a democracia é isso que eu estou fazendo agora. Exercer a democracia é o que o povo brasileiro está fazendo agora. Democracia é eu e milhões de brasileiros poderem se manifestar contra alguém que não nos representa. Democracia é os parlamentares que estão ali no congresso e que nem sequer participaram dessa eleição de tão absurda que foi, poderem fazer a mesma coisa que eu e milhões de brasileiros. Democracia é você poder discordar desse absurdo, poder se manifestar contra esse absurdo e provocar mudanças nesse quadro. É você ir às ruas, se mobilizar, assinar petições e correr atrás dos seus direitos, do direito de ter alguém que te represente democraticamente.

Nosso parlamento é uma bagunça. O Brasil tem problemas sérios de corrupção, o mundo inteiro já sabe disso, e eu, como cidadã brasileira, fico feliz de ver a mobilização da sociedade contra a eleição injusta de um presidente de uma CDHM que não representa o povo. Fico feliz, porque entendo que esses sejam os primeiros passos. Acredito que o Brasil está acordando. Ninguém esqueceu do Renan Calheiros, por exemplo, que é outro absurdo, eu observei que houve várias manifestações, inclusive, a petição da Avaaz já foi entregue. É mais uma situação em relação ao qual o povo brasileiro anseia por mudanças. Eu fico feliz quando eu vejo qualquer manifestação, até pelo facebook, porque acho que já passou a fase das lamentações. Só se lamentar e ficar de braços cruzados e não gritar, se manifestar, ir à luta, não traz resultados. Somos um povo culturalmente acomodado e quando eu vejo que estamos nos dando ao trabalho de bater fotos, de ir às ruas, de fazer várias manifestações, me encho de esperanças! Não reclamo, adoro! E espero que seja o começo, ainda quero e espero muito mais de nós, povo brasileiro.

Sou muitas coisas, sou o que eu quiser e Marco Feliciano NÃO me representa, nunca me representou e nunca vai me representar.

Um comentário:

Dom Rafa disse...

Não pesquisei muito, mas agora parece que também tem um Projeto de EMENDA À CONSTITUIÇÃO (olha só o tamanho do negócio!) que "acaba" com o Estado laico. Estamos cada vez mais Irã. Tanto do lado dos religiosos quanto das minorias - não vamos esquecer o outro lado da moeda - temos discursos mega extremistas, sem possibilidade para diálogo. Minha grande crítica com relação à religião (cristã, principalmente)é o fato de seus representantes não se contentarem em "espalhar a Palavra de Deus", mas, muitas vezes, enfiá-la goela abaixo de tudo que é ser vivo que lhes apareça pela frente...

Beijos, Raíssa.
gostei do texto!