Viver é foda, morrer é difícil, já dizia o poeta.
Ver nossos antigos medos marcando presença e coisas importantes vazando por nossos dedos definitivamente não é legal, mas faz parte. Acho que quando a gente apanha muito da vida, chega uma hora que a gente aprende a bater de frente com algumas coisas que é pra não doer tanto assim, mas como diria a Gizelle, porém sem êxito... Porque dói sim, dói mesmo. Mas aprendemos a nos proteger e nos fortalecer para não sermos engolidos. Costumo dizer que existem fortes e sobreviventes. Forte deveria ser aquele cara que sente dor, mas não foca nisso, que enfrenta tudo com garra e vai em frente, que exala coragem e... Não é meu caso. Nós, sobreviventes, enfrentamos as coisas porque temos que enfrentar, se tivéssemos escolhas, não enfrentaríamos. A situação se coloca em nosso caminho e o que fazemos é sobreviver, não morrer e não enlouquecer. Ileso? Ileso ninguém sai. Dói muito, são feridas que demoram para cicatrizar, que nos arrancam lágrimas à noite e muitas contagens até dez e respirações bem fundas durante o dia, é isso que os sobreviventes fazem. Os sobreviventes não são corajosos, eles são super covardes, essa é uma das verdades universais que todos deveriam saber, mas quase ninguém sabe. Eles são tão covardes que eles fogem como o diabo da cruz e o vampiro da água benta de qualquer situação que exija deles algum tipo de risco. Se existir alguma possibilidade de dar errado, eles não seguem em frente. Eles vivem na defensiva o tempo todo, porque eles sabem que é melhor assim! Mentira, né? É óbvio que sobreviventes não sabem nada. Afinal, quantas oportunidades perdemos? Quantas coisas deixamos pra trás por viver atrás desse muro que cuidadosamente construímos? Às vezes, ok, quase sempre, eu canso de ser sobrevivente e queria virar a casaca e ser muito forte. O time dos fortes é sempre tão bem resolvido, cheio de histórias incríveis pra contar. E sabe todas aquelas cicatrizes que os sobreviventes tanto reclamam? Os fortes exibem com orgulho, porque sabem que cada uma delas carrega em si uma história fantástica que os sobreviventes não conhecem por viverem num castelo de cartas na ilusão de que não vão se machucar. Ilusão porque sempre se machucam, a diferença é que eles desperdiçam as histórias incríveis, porque acreditam que essas lembranças causariam mais dor, mas estão errados, porque as histórias maravilhosas só acrescentam. Elas te fazem lembrar de momentos maravilhosos que por mais que tenham passado não significa que não foram bons. Elas te fazem viajar por sonhos bons. Se arriscar é a melhor opção, sabe... Porque todas as lembranças incríveis vão sempre viver em você e te acompanhar por todos os lugares. Elas serão parte da pessoa que você é e te ajudarão futuramente em vários momentos decisivos. Talvez a diferença entre sobreviventes e fortes seja só aprender a meter a cara, a deixar os coletes salva-vidas no barco e mergulhar com vontade, sem medo de se afogar. Preciso de um plano pra mudar de lado...
Vou guardar minhas lembranças cuidadosamente em potinhos. Adoro potinhos.
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