sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Vida líquida

Sinto falta de quando o tempo corria mais devagar. Hoje o simples deslizar de dedos nos atropela com tanta informação que tenho a sensação de que não retemos quase nada. Como se as informações não fossem capazes de nos tocar com profundidade, pelo menos não essas que recebemos tão furtivamente e que em seguida já estamos absorvendo a próxima.

“Sinto falta da gente se ler”, disse ontem pra um amigo da blogosfera. Termo esse que agora é “cringe”, porque o pessoal não sabe mais como é um blog pessoal. Hoje nos adaptamos para caber nos caracteres do twitter, que há 14 anos enquanto eu escrevia meus textos, eu me perguntava: será que isso vai dar certo? Como a vida cabe ali? E não é que de certa forma “coube”? É só seguir o “fio”. A vida vai passando e vamos nos adaptando. Há 14 anos, tinha 20  anos e no próximo dia 4, serão 34. E eu sinto falta de ler as pessoas. E sinto falta da Raíssa que escrevia mais também. Se eu fosse uma escritora famosa, diria que tenho sofrido de bloqueio criativo. O hiato mais longo de todos os tempos. Brinquei muito tempo com as palavras, mas de repente elas se perderam de mim. A época que mais escrevi, foi talvez a que mais sofri. Mas talvez isso explique muita coisa. Sabe, é incrível que estejamos aqui em tempos de chat gpt e com a inteligência artificial tão presente, pois testemunhamos maravilhas. Só que ao mesmo tempo, questiono-me se isso não faz com que nos esforcemos menos, com que pensemos menos, com que sintamos menos. Tempos líquidos. Não sólidos, líquidos. E o que é líquidos não é feito pra durar.

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