segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Descriminalização do aborto

Com toda essa polêmica a respeito da descriminalização ou não do aborto eu andei lendo em vários blogs posts a respeito do assunto. Seguindo o conselho da Lú Vieira do Máquina de letras, resolvi transformar meu comentário ao post dela em um post.


Eu acredito em Deus e acredito que cada pessoa tem o Deus que merece. Sendo assim, o “pecado” depende do teu referencial. Eu sou a favor da descriminalização do aborto. Não sou a favor do aborto, veja bem, são coisas diferentes. Uma mulher que pretende abortar, ela vai abortar sendo uma prática criminosa ou com o aborto sendo perfeitamente legal. A diferença é que se ele for descriminalizado a mulher vai ter assistência médica adequada para minimizar os danos, vamos dizer assim, mas claro que ela vai correr os riscos do procedimento, assim como correria em outros procedimentos médicos, fato óbvio. Eu, particularmente, acho o aborto uma agressão muito grande fisicamente e emocionalmente para uma mulher, mas discordo que a descriminalização do aborto seja um incentivo para o aborto. Descriminalizar uma conduta é muito diferente de promover uma conduta. Não é a mesma coisa e uma coisa não é consequência da outra. Assim como todo mundo sabe de onde vêm os bebês, todo mundo tem consciência de como se tira um. As mulheres sabem que pra sair dali de dentro da barriga não vai ser algo nada simples, que vai ser doloroso e que vai ser ruim.
Por mais que você não acredite em Deus, em pecado ou ache que o aborto não é um assassinato, mas sim um direito da mulher, o direito da liberdade sobre o próprio corpo, você sabe que sua avó não pensa assim, que sua mãe crente, catecista, seja lá o que for, não pensa assim. Volta e meia você vai sentir a pressão da sociedade pela sua conduta, vai se questionar sobre as verdades absolutas, vai se questionar perante a Lei, perante Deus, sobre o certo e o errado, enfim, vai viver um inferno astral aí... Nem que seja por um dia, mas vai (além da recuperação física).
Porque, em regra, todas as nossas escolhas implicam em perdas... Os ganhos são exceções. Uma mulher que faz um aborto não o faz por falta de informação. Em todos os colégios públicos e particulares do país os jovens tem aulas sobre educação sexual, todo mundo sabe que pênis + vagina – camisinha - anticoncepcional (só pra garantir) = gravidez. E na hora do tesão o argumento não vai ser “aaah, vaiii, a gente tira o feto depois”, o argumento vai continuar sendo o mesmo de hoje “aah, continua, vaai, não vai acontecer com a gente”. É igual DST, as pessoas realmente acham que estão imunes até que acontece com elas. Acho que o governo faz a parte dele muito bem: “USE CAMISINHA, Use camisinha, USE CAMISINHA, pelo amor de Deus!!”. Mais que isso só se a campanha fosse “NÃO TRANSE, NÃO FAÇA SEXO” e isso simplesmente não dá, porque democracia é democracia e todo mundo tem direito a intimidade e sendo maior de idade e vacinado, vai em frente... E sendo menor de idade a gente sabe que também pode, não é crime se os dois forem menores, enfim, no Brasil, sexo pode. Sobre dar assistência às futuras mamães? Olha, eu moro em Belém do Pará, no Norte do país, visivelmente menos desenvolvido que o sul e em todos os postos de saúde você tem anticoncepcionais, preservativos, DIU, tudo de graça. Todo mundo sabe disso. Tem a Santa Casa de Misericódia, com UTI neonatal, acompanhamento do início ao fim da gravidez... O fato é que assistência não falta. Casas de apoio para as futuras mamães? Hipocrisia falar que a vida de uma pessoa vai ser melhor estando grávida e sendo rejeitada no meio social em que vive do que se ela não tivesse o bebê e conseguisse seguir a vida dela como ela realmente gostaria. Eu conheço tantas famílias onde engravidar é tão desastroso quanto abortar. Paradoxo, não é? Mas é a realidade. “Um filho, é como fazer uma tatuagem na cara”, tenha certeza disso. Tentar fazer com que uma pessoa deseje algo indesejável é impossível, não consigo visualizar uma maneira de alguém ou do próprio governo fazer isso. A mulher pode “aceitar” o indesejado, mas ele vai continuar sendo indesejado, a criança não será desejada e, sinceramente, parir um filho no mundo e não dar educação, não dar AMOR, não dar estrutura, não dar nada... É simplesmente horrível. Ver uma criança na rua cheirando cola, pedindo esmola, dormindo num pedaço de papelão... Isso é desumano. Não amar um filho, isso é desumano. Entrar em depressão por não ter dinheiro pra alimentar mais uma boca vestir mais uma pessoa e simplesmente não dar conta do recado... É muito desesperador.
Ter filho não é pra todo mundo. Assim como conseguir evitar uma gravidez não é pra todo mundo. Mesmo com toda essa informação, com camisinhas sendo distribuídas, anticoncepcionais idem... Um dia a camisinha estoura, outro dia se esquece de tomar o hormônio, noutro... Era só um amasso, ninguém “chegou láá”, mas aconteceu mesmo assim... E aí? Como fica? Quando esse dia chegar, o que mais vai ter é gente pra apontar o dedo na cara e falar “você poderia ter evitado, a responsabilidade é sua”, mas não era pra ser assim.
Acho que é um direito de cada mulher sim, até porque quem tem o filho é a mulher e não o homem, porque pagar pensão não é ser pai (há exceções, claro). Enfim, acho que deve ser feito um estudo muito grande a respeito do assunto, definir um lapso temporal para a conduta, porque uma coisa é 2 meses, outra é 9... Penso que são questões que devem ser discutidas, mas acho que a conduta deve ser descriminalizada e claro que descriminalizar uma conduta não é simplesmente “ei, tá liberado, pode abortar”. O governo deve descriminalizar a conduta e regulamentar, legislar descentemente a respeito, sobre a questão do tempo, sobre como deve ser a assistência, que tipo de assistência, etc. E juntamente com isso acredito que se deve criar uma campanha de conscientização, tipo a do cigarro hoje, você pode fumar, mas até no maço de cigarro tem aquelas fotos horríveis. Cada um sabe o que faz, sabe a dor e a delícia de ser, sabe o que pode suportar, sabe o que culpa e o que não culpa, sabe do que é capaz e do que não é. 
A única alternativa (que não é solução) que eu, Raíssa, vejo para o aborto seria que a mulher levasse a gravidez até o fim e doasse a criança para uma família, porque só Deus sabe quantas mulheres tem o sonho de ser mãe e não conseguem realizá-lo e seriam mães que dariam amor e desejariam essa criança mais que tudo no mundo. Mas é tão mais difícil você dar um filho do que não tê-lo e falo isso pela própria sociedade mesmo, porque se você faz algo desse tipo você vai ter a sociedade inteira te julgando por ter “dado” um filho. Isso é triste.
Onde começa a vida? Na fecundação do óvulo? Na nidação dele ao útero? Na 5ª, na 10ª, ou na 20ª semana? Ou será que só se considera quando nasce de fato? Essas perguntas que eu fiz... As respostas mudam de pessoa pra pessoa, independentemente do que a ciência diz. Se o feto for pequeno e não tiver formado, tudo bem, mas se a barriga tiver grande “não pode”. E o certo é qual? Se você considerar que o nascimento começa no momento em que o óvulo é fecundado, por favor, esqueça as pesquisas de células tronco, porque, você sabe, “são vidas ali naqueles tubos”! (que seriam descartadas caso não fossem utilizadas nas pesquisas, mas isso é outra coisa que fica para um outro momento). Seguindo essa linha, descartar o embrião é o mesmo que abortar ou utilizá-lo para pesquisas de células tronco, idem.
Catolicamente falando, ninguém vive no reino de Deus antes de ser batizado, então teoricamente um bebê que ainda não nasceu ou que já nasceu e não foi batizado não pertence ao reino de Deus e ainda é pecador, porque Jesus morreu na cruz pra nos livrar dos nossos pecados e por ter morrido por nossos pecados, Cristo pode nos dar Sua justiça. "Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nEle nos tornássemos justiça de Deus" (II Coríntios 5:21).
O fato é que essas questões que eu levantei são polêmicas a respeito da vida. De quando começa, do que pode ou não ser feito a respeito. Diante disso, quando começa a vida? Enfim, a meu ver, os valores mudam. A percepção e o entendimento da sociedade a respeito de certas condutas mudam. Hoje em dia a mulher pode fazer sexo antes do casamento e não ser desonrada por isso, as pessoas se divorciam, e se casam de novo (!), fumar não é mais “chique”, agora é coisa de dependente, a concepção de determinados valores mudam o tempo todo, o perfil da sociedade muda, a família muda, hoje em dia você tem famílias com duas mães, dois pais, mães solteiras, pais solteiros (!), não é simplesmente uma questão religiosa, jurídica ou de “princípios” (que são absurdamente relativos), é uma questão social, antropologia, ética, moral, cultural, e tudo isso deve ser analisado para que se possa tomar uma atitude a respeito, e eu, Raíssa, analisando tudo isso dentro do nosso contexto social atual acredito que a conduta deve ser descriminalizada sim, por todos esses motivos que eu já expus. Acho que hoje, descriminalizar é o mais coerente a se fazer.
E para aqueles que se dizem a favor do aborto nos casos de estupro, mas que são contras nos outros casos e se dizem a favor da vida, se decidam, porque se você considera o aborto um assassinato, você vai estar justificando um “assassinato” por causa de um outro crime. Se assim fosse, nada de cadeia, vamos matar todos os estupradores, porque nesse caso, pode. Penso que ou você é a favor ou você é contra. Não existe meio contra ou meio a favor. Assim como não existe mulher quase grávida. Porque assim como o estupro pode parecer um bom motivo para o aborto pra você, não ter condições de sustentar uma pessoa pode ser um argumento igualmente forte para outras.



Concorde, discorde ou concorde e discorde.
Beijos

4 comentários:

Ana Cecília Sabbá disse...

Recomendo o filme "O aborto dos outros", um documentário brasileiro que relata de maneira bem fiel o que acontece no nosso país, justamente por essa criminalização injustificada de um direito inerente ao sexo feminino!

Anônimo disse...

RECOMENDO O FILME "O GRITO SILENCIOSO" Fala do aborto. Assiteam pra depois falar merda (y)

Raíssa disse...

Assisti os dois filmes, o documentário é excelente. Os dois são bons. Continuo com a mesma opinião.
;)
Beijos

Lu Vieira disse...

Fiquei contente em ver aqui que você seguiu o meu conselho. Beijos!