segunda-feira, 3 de maio de 2021

Bom, ontem fez um ano do pesadelo que a gente não acorda. Da ausência que grita. Da dor que não cessa. Da saudade que não passa. Do amor que nada ultrapassa. Do inacreditável. Da única certeza que há na vida, porém justamente aquela que não queremos lidar, que não aprendemos a aceitar e que sempre vamos questionar. Um ano que a vida me separou de uma parte de mim. A parte mais importante até então. Um ano de sobrevivência. Um ano de despertar pela manhã e pensar, mais um dia, sério? Como? Quem me conhece sabe o quanto as palavras são importantes pra mim, e talvez nem entendam porque nunca escrevi de verdade falando tudo que sinto sobre isso, mas é que é impossível traduzir em palavras o que eu sinto, tanto porque nenhuma palavra é suficiente para homenageá-la, e nunca será, como porque é o sentimento mais complexo que eu já vivi, a “fase” (que não é fase) mais difícil que já passei e tenho passado, e tenho me virado de todas as formas pra tentar passar por isso da forma menos pior possível, embora eu nem saiba realmente se existe uma forma menos pior para lidar com essa ausência.


Eu vivo esperando você voltar. Eu não consigo olhar de frente para isso e compreender que ainda tenho uma boa expectativa de vida e que nos próximos capítulos da história você não estará lá. Toda vez que acontece alguma coisa na minha vida, às vezes relevante, às vezes corriqueira, quero te contar. Muitas vezes te conto. Falo sozinha, peço sua orientação. Você é tão viva em mim que às vezes até te escuto. Sinto saudade de me jogar na sua cama e sair contando do meu dia, do meu trabalho, dos meus planos, dos meus sonhos. E mais saudade ainda de saber que você estava ali por mim e para mim. Me apoiando. Pensando em formas de me ajudar. Me estendendo sua mão, seu colo e seu abraço. Lutando como podia para me ver feliz. Me incentivando, investindo em mim de todas as formas. Nossa, será que alguém já me apoiou na vida mais do que você? Já acreditou em mim mais do que você? Você sempre colocou o chão para eu pisar, e andar por aí sem chão tem sido difícil. Eu ando torto, mas tento andar. Mas nada se compara a andar com você.


Eu escuto de muitas pessoas que você sempre está comigo. Às vezes isso conforta, às vezes isso revolta. Conforta porque você está em tudo que faço e tudo que sou. Revolta, porque ao mesmo tempo eu não te encontro. Seus olhos azuis, seu sorriso mais espontâneo, seu cheiro. Cheiro de mãe!! Seu abraço, que nem era simplesmente abraço, era o conforto do mundo inteiro em um único ser. Acolhimento, amor. E agora ausência. Muitas vezes descrença. Briguei com Deus. Faço as pazes, brigo de novo. Eu dobrei o joelho. Eu rezei. Eu pedi. Eu implorei. Supliquei. Eu chorei. Eu rezei. Eu orei. Eu implorei, várias vezes. E eu não fui ouvida, eu não consegui. Eu não mereci?

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Um ano serve pra gente ver que sobrevive. É o marco temporal da dor. É ter que olhar de frente e ver que o tempo não parou naquele momento, ainda que tenha parado. É ver que passou!!! Não sei como. Passou rápido e tem sido uma eternidade viver sem você. Eu me esforço. Todos os dias. Eu valorizo cada passo que eu dou. O banho mais demorado ouvindo uma música que eu gosto. O jantar com as pessoas que eu gosto. As pequenas conquistas dos nossos bebês. Conseguir levantar da cama, mesmo quando a vontade é só continuar ali o dia todo. As pessoas mais próximas de mim me acham forte, o que elas não sabem é que eu sou feliz por você. Porque você lutou a vida toda pra isso. Porque eu te devo isso. Eu aprendi a valorizar cada momentozinho de alegria e felicidade, porque eu realmente não sei o dia de amanhã. Eu não sei se essas pessoas que eu tanto amo vão estar aqui amanhã. Eu estou me esforçando, mãe. Eu juro. E vou continuar.



De uma parte sua,

Para uma parte de mim.

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