Vivemos tempos difíceis, não dá pra romantizar de forma alguma. Ninguém tá passando por isso porque o mundo tava rápido demais ou porque precisamos crescer mais. Isso não é uma lição de Deus ou da vida. Isso é um fato, simplesmente. E não somos os primeiros, dificilmente seremos os últimos mortais a passarem por algo do gênero. A diferença é que a guerra que lutamos hoje é a nossa guerra. Não é a guerra da Síria que já dura uma década, mas nunca nos incomodou de fato, porque não é com a gente e não interfere na nossa vidinha, na nossa rotina. A dor que sentimos hoje, tantas pessoas sentem diariamente e nunca
conseguimos dar valor. Não quero dizer que precisamos passar por isso para darmos valor, embora isso seja uma consequência razoável, eu só quero dizer que essa é a nossa realidade hoje. E dói.
Tem horas que dói cada pedacinho de mim, tem horas que a cabeça só falta explodir, tipo agora que as crises de enxaqueca vieram pra ficar. A gente vai “seguindo a vida”, que nada mais é do que sobreviver dia após dia tentando remontar nossos próprios pedaços para seguir em frente… e quando a gente vê já passou um ano. Quase dois anos. E foi ontem. E faz um tempão. E tem dias que estamos distraídos. Às vezes estamos distraídos por dias. E aí, “gatilhos”, e vem tudo de novo e nos derruba. E nos perdemos e não sabemos dizer se evoluímos alguma coisa desde o início já que tudo desmorona de novo, parece a porra de um castelo de cartas. E no dia seguinte a gente continua a montar do zero… carta por carta. É foda. Bater uma foto sorrindo, sair pra dançar, beber, se divertir, não quer dizer que agora tá tudo bem. Na real, não melhora, não passa e não fica tudo bem. E eu não tô olhando o copo metade vazio e escrevendo isso, eu só estou escrevendo uma observação, um fato. A dor não diminui, mas a vida continua sim, independentemente da nossa vontade, que obviamente era voltar o tempo e parar o tempo, e essa continuação da vida, aumenta a vida ao redor do luto e por isso seguimos. Vivo, de longe, o meu pior luto. Semanas, e depois meses e agora anos… que tantas vezes revivo uma semana cruel e dolorosa e ao mesmo tempo convivo com uma ausência gritante, berrante, estridente, avassaladora, pois é, o Aurélio não conseguiu adjetivar esse sentimento que é escroto pra caralho.
Fazendo uma retrospectiva, tentei ser fortaleza, pra proteger os meus que estão aqui e sinto que falhei, mesmo com a gente se protegendo e se apoiando e se suportando, no sentido real de se dar suporte, falhei porque em algum momento eu desmoronei. E foi horrível sentir que eu desmoronei, porque desmoronei sem ela e pela ausência dela. E o abraço dela era o único no universo realmente capaz de acalentar. Tentei me reerguer. Medicamentos, terapia. Deus? Pois é, esse eu perdi pelo caminho e ficou um vazio ainda maior, porque ele preenchia. E de repente parecia o coelho da Páscoa misturado com Papai Noel. E a pior parte é que ainda parece. E aí no meio disso tudo eu tive esse fase em que eu tentei buscar Deus. Li livros espiritualizados. Entrei em um grupo espírita. Fui numa cartomante, queria respostas. Obviamente não achei e desacreditei da cartomante (sim, eu já acreditei). Continuei. Como viver sem Deus? Acordo todos os dias e tomo café com minha razão. Meu pai. Durmo com a Nina. Meus amigos/irmãos. Morro de saudades das minhas irmãs, cunhados e nossos filhos e agora minha prioridade é ir pra perto deles, todos são minha razão. Fiz dieta. Emagreci. Comecei a fazer atividade física e ao mesmo tempo perdi o medo de morrer, na esperança de encontrar minha mãe. Não quero morrer agora, só não tenho medo disso como antes tinha. Conheci pessoas novas. Pessoas legais e queria que minha mãe tivesse conhecido essas pessoas e é estranho essas pessoas não conhecerem minha mãe, porque é como se elas não conhecessem uma das minhas melhores partes. E meus filhos? Agora quero filhos. Mas eles não vão conhecer ela… Fica faltando uma peça. Sempre falta uma peça.
Persegui e ainda persigo pequenos prazeres cotidianos. Assistir a série que eu gosto. Ouvir as músicas que adoro no volume alto do carro. Acordo ouvindo música, tomo banho ouvindo música, música tem me salvado. Trabalho. Passei muito tempo sem ouvir música antes do luto. E agora eu vivo ouvindo. Também tive e ainda tenho essa fase, trabalhei demais. Me cobrei demais. E me cobro. Ao mesmo tempo me falo que não devo me cobrar. Mas porra, nessa cagada toda passou um ano, eu preciso me cobrar, eu preciso me mexer.
Olha, não é fácil. É puxado. Todo mundo tem problema, todos tem suas dores, mas tem sido puxado. E tem momentos de alegria, de rir até a barriga doer, de felicidade… de sorriso feliz e verdadeiro… e tudo isso seguido do vazio. Da ausência. Da falta. Constante, silenciosa e ao mesmo tempo gritante da pessoa mais incrível que já passou por aqui. Te amo que dói. E dói mesmo. Lamento todo o tempo perdido. Ao mesmo tempo sou grata (?) por cada abraço. Cada sorriso. Pelo amor sufocante!!!! Tão forte e sufocante que sinto esse sentimento aqui e agora, mesmo sem saber de onde vem. E é recíproco.
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