As pessoas esperam coisas demais dos outros o tempo todos. Você espera que alguém lide com uma situação de uma determinada forma, que reaja a outra situação de certa forma também, e aí quando vê que a vida não segue essa receita ainda julga, porque não foi como o esperado.
É muito louca a forma que as coisas acontecem na vida, como a gente pensa que tem controle de algo, mas na verdade não controla nada e quanto mais confiante você se sente a respeito da vida, mais ela se impõe e te mostra que embora você seja jogador, um mero jogador, diga-se de passagem, quem delimita as regras não é você.
Há um ano e três meses atrás eu tinha outros planos, outros sonhos, outras ambições, outras saudades, outros gostos, outras ideias. Eu pensava que tava no meu melhor momento, porque sempre quis chegar aos 29 anos realizada, e cheguei. Do jeito que deu eu cheguei, e me senti grata naquele momento.
No meu aniversário de 29 anos lembro de estar reunida na hora dos parabéns e falar para as pessoas próximas que compartilhavam aquele momento comigo que eu não podia me sentir mais grata. É muito louco isso, mas em seis meses depois desse dia eu nunca me senti tão não grata. Não é bem ingrata, como alguém que não sabe agradecer algo adequadamente, mas não grata mesmo, por sequer enxergar algo digno de gratidão.
Quando a vida te arranca alguém tão essencial, importante, imprescindível (e infinitos adjetivos afins) da sua vida… não sobra muita coisa.
Hoje sigo com uma incompreensão infinita das coisas. Eu provavelmente não mudei meus defeitos mais feios, como ser cabeça dura em muitas coisas, ser impaciente e muitas vezes não ter tato pra falar, mas definitivamente eu renasço todos os dias desde então.
Primeiramente eu tento ser alguém melhor. Sempre tentei, mas hoje tento mais. Tenho mais empatia do que antes, e olha que sempre fui empática. Eu sou imediadista… quero as coisas importantes logo, porque sei que o tempo tá correndo e o clichê de que “amanhã pode ser tarde” faz super sentido quando você abre os olhos de manhã e vê que é tarde mesmo, porque o inacreditável continua se confirmando dia após dia, o tempo não parou e não volta. Então eu perco menos tempo com coisas que não me fazem bem. Eu digo muito mais “não”, finalmente eu aprendi a dizer não. Eu penso, dá pra fazer? Eu quero fazer? Se não, é não mesmo. Se eu não quero ir, eu não vou. Não me demoro mais onde não me sinto confortável, porque na real, sabe lá se o último dia não tá perto, né? Eu também não tenho mais medo de partir. Não que eu queira, sinto que tenho muito a fazer por aqui, mas se for a hora de ir, o amor da minha vida foi na minha frente, então esse medo sumiu. E mesmo se acabar tudo e nem tiver um outro lado, tudo bem, porque meu grande amor já passou por isso. E isso não é resiliência, é só uma constatação. Meus planos que eu falei no início… mudaram em dose plena. E é irônico, mas tava refletindo ontem e me dei conta de que hoje meus planos são os planos que eram da minha mãe. Ficar perto da minha família, o mais perto que der, pelo máximo de tempo que der. E não é que eu não quisesse isso antes, eu sempre quis, mas eu não priorizava, mas mamãe, muito sábia, vivia tentando me convencer e sonhava com todos juntos novamente. Esse é meu sonho agora. Nunca fui tão grata por ter irmãos. Nunca quis ter filho, hoje quero três, no mínimo, porque se for pra colocar filho no mundo eles precisam de irmãos e um dia irão entender isso (como dizia minha mãe).
Obviamente não vieram só amadurecimento e mudanças de planos, veio muita dor, insônia, depressão, ansiedade, mudanças bruscas de humor e um desespero em busca de estabilidade emocional. Irritabilidade, revolta, desconforto comigo mesma. Descontentamento com a vida. E todo dia passou a ser uma luta diferente. Logo eu, de sorriso fácil… de repente, sentimentos sinistros nunca antes sentidos em 30 anos. Total desinteresse por tudo. Pelas coisas, pelas pessoas, pelos meus planos, pelos meus sonhos… pelo meu mestrado, pelo trabalho, pelos bolos, pelos rolês, pelos meus amigos… se fizesse gosto passava o dia deitada na cama assistindo alguma série, jogando free fire… e não porque tô afim de assistir série ou jogar, mas porque quero matar o tempo. Preciso que ele passe. Mesmo sem querer algo especial, às vezes ele só precisa passar. Mesmo sabendo o quanto isso é um desperdício de vida, às vezes o tempo só precisa passar.
O luto de um amor tão grande é de longe a pior coisa que já vivi. E olha que sempre me senti forte, porque passei por coisas que eu considerei difíceis, mas tive fé e sobrevivi. Mas o luto te tira tudo. Te tira alguém, te tira a fé e muitas vezes a vontade de continuar, porque te tira também o sentido das coisas. Você olha o copo todo dia e essa merda continua metade vazia, em vez de metade cheia.
Virei uma perseguidora de pequenos prazeres da vida. Gosto de ver o pôr do sol. Gosto de remar. Gosto de ouvir minha músicas preferidas e cantar alto. Gosto de dirigir só pra poder gritar as músicas no carro, porque na real eu nem gosto de dirigir, porque acho estressante. Gosto de presentear as pessoas. Gosto de colorir. Gosto de assistir filmes e séries, mas já gostei mais. Gosto de nadar, na verdade eu não gosto, eu amo. Quando entro na piscina os problemas se distanciam e tenho uma hora onde o objetivo é me sentir melhor e chegar na borda do outro lado. Gosto de dançar. Como nunca, gosto mesmo de dançar. Gosto de me alimentar melhor, mas gosto mais do que nunca de açaí (como se em algum momento eu não tivesse gostado tanto). Gosto de abraçar, gosto de beijar, de amar, e gosto muito, muito mesmo de sentir. Gosto de sentar numa mesa com amigos e contar e ouvir histórias e rir. Gosto mais que tudo que já disse de estar perto do meu pai, das minhas irmãs e cunhados, meus filhos, gaby, pris, da nina, chega a ser torturante viver longe e tem dias que choro muito por isso. Gosto de comer meia fatia de nega maluca e me sentir feliz por não dar mais conta de comer sozinha meia fatia. Gosto de pessoas que conheci no último ano, delas me fazerem bem e de eu conseguir conhecer pessoas novas e me sentir tão bem com elas mesmo depois de tudo. E também gosto de pensar em como a mamãe reagiria a essas pessoas.
As coisas mudam o tempo todo. A gente perde um tempo ridículo e precioso com coisas bobas. Todos os dias podemos ser melhores com a gente e com os outros, podemos fazer escolhas melhores e viver da melhor forma que conseguimos. Espero que os dias cinzas deem espaço aos dias coloridos. Que os planos mudem, mas não terminem. Que o copo fique metade cheio. Que a vida não perca o sentido, nem por um segundo. Que a gente consiga sempre se reinventar, renascer, redescobrir e que nos piores momentos consiga enxergar algo que dê espaço a sentimentos bons, que dê prazer e que nos lembre que mesmo com um amplo espaço muito comprometido, nosso coração está sempre em expansão e cabem outros sentimentos bons, outras pessoas, outras experiências e que isso não interfere no espaço comprometido. E tudo bem.
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